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  A BICICLETA DO PRIMO “MUNDIM” E O PEIDO NO ESCUDO DO FLAMENGO

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Garrincha


Em 28/02/2021 às 18:49

A BICICLETA DO PRIMO “MUNDIM” E O PEIDO NO ESCUDO DO FLAMENGO

Ao contrário do que acontece hoje, quando, na minha cidade natal, motoqueiros avançam alucinados pelas ruas, misturando-se aos automóveis que circulam por uma remodelada e florida Avenida Santos Dumont, quase não deixando espaço para os pedestres caminhar, nos anos sessenta, a cidade era composta por uma gente pobre que carecia de escolas, saneamento básico (até mesmo de água tratada), e que andava calma pelas suas ruas sem calçamento e praças empoeiradas por toda parte.

Abro parêntese para dizer que, paradoxalmente, minha cidade foi crescendo voltada para a sua Região Norte - fato incomum em quase todos os centros urbanos, que “só crescem para o Sul”, já que águas não sobem ladeiras: os dois cinemas, os principais clubes, a igreja matriz, o único jardim, a sede da Prefeitura, o mercado municipal, o campo de futebol, a cadeia pública e até a fuzarca que existiam na época em que ali vivi estavam instalados do “lado de lá” – denominação popular da sua parte norte.

Desnecessário lembrar que, por óbvio, daquele “lado” também residiam classes “média” e “alta”, ao passo que, “do lado de cá” (parte Sul), moravam os menos abastados, a classe “baixa”. Fecho o parêntese para lembrar um outro paradoxo. Refiro-me ao fato de que, inexplicavelmente, comércio local situava-se na parte pobre, onde circulava a riqueza municipal.

Nesse cenário, na Santos Dumont (principal avenida da cidade, onde se instalaram as principais lojas do comércio nanuquense), situada no meio do primeiro quarteirão que fazia esquina com a antiga ponte de madeira sobre o Rio Mucuri, cujas águas sinuosas separavam os dois lados da cidade (“o lado de lá” e “o lado de cá”), existia a “Loja de Bicicletas” do “Seu Fernandinho” – comerciante de parca estatura, mas de grande sorriso no trato com a clientela.

Ali, na “Loja do Seu Fernandinho”, se vendia, além de bicicletas completas, “novinhas em folha”, tudo quanto é tipo de peças alusivas àqueles veículos de duas rodas.

Nas minhas idas e vindas (“do lado de cá pra lá” e “de lá pra cá”), percebia e ficava encantado com o movimento, com o entra e sai, de pessoas que frequentavam a “Loja do seu Fernandinho” – uma espécie de precursora das atuais concessionárias de automóveis – que também funcionava com venda de acessórios para aqueles veículos: capas para selim, flâmulas, faróis, pinhões manuais, que funcionavam como buzinas, limpadores de raios e de rodas, decalques, enfeites, peças e miudezas em geral para bikes...

Como passei toda a minha infância e boa parte da adolescência morando “do lado de cá” (portanto, na região pobre, embora rica comercialmente), de três a quatro vezes por ano, levado pela minha mãe, atravessava o rio, rumo ao “lado de lá”, onde residia a minha tia Otelina, com os seus dois filhos (Renato e Raimundo), mais prima “Nai”, sua enteada, para visitar o meu irmão Carlos Sena, que o meu pai, como era de costume em famílias de nordestinos pobres, “deu para a tia criar”, quem, com ela, morou cerca de quatro anos

Pois foi, exatamente na véspera do Natal do ano de 1962, que se sucedeu o “causo” da Bicicleta do Mundim, fato que, durante anos a fio, manteve acesa a chama da minha avidez por dar um pulo naquela magrela, montar o seu selim e peidar no escudo do Flamengo que enfeiava o seu assento!

É que, já aos 6 anos de idade sendo botafoguense em razão do “Deus Garrincha”, que a extinta “Revista do Esporte” estampava, semanalmente, em sua capa, dando dribles no lateral flamenguista, Jordan (sua maior vítima nos idos tempos em que o time do escudo mais bonito do mundo ficara conhecido pelo alcunha de “O Glorioso”).

Qual não foi a minha “deceptude militante” (aqui, plagiando o personagem “Odorico Paraguassu”, prefeito da fictícia cidade de Sucupira, da novela que marcou época na TV brasileira, escrita pelo saudoso Dias Gomes), entre um papo e outro, a minha mãe indagou:

- “E os meninos, comadre?

- “Estão bem, como Deus quer, comadre Izauri. O Renato tá no banco e o Mundim foi comprar uma bicicleta lá na Loja do Seu Fernandinho... Já deve tá chegano... Cismou por que cismou de andar de bicicleta, Comadre!”

- “Êeeeba! Vou pedir ao primo pra me levar na garupa” – pensei...

Em vão:

- “Bença Tia” – adentrou a sala com um pacote debaixo do sovaco, com aquele dente de ouro que iluminava o seu sorriso meio torto.

- “Deus te abençoe” – respondeu-lhe a minha mãe.

- “Oxente, Mundim, você num disse que tinha ido comprar uma bicicleta? Desistiu? O dinheiro num deu? Por que num passou no Banco da Bahia e pediu um pouco emprestado pro Renato para inteirar”?

- “Ôooxe! Nada disso não, mãe! O dinheiro deu, mas a bicicleta que eu queria num dia montada. Seu Fernandinho disse que só para o ano... Mas ele vende ela desmontada, peça por peça... Hoje comprei o guidão, vou eu mesmo montar minha magrela, peça por peça...” - gabou-se, abrindo a caixa de papelão e mostrando aqueles chifres da maldita que consumiria o resto dos meus dias de vida.

Assim, durante meses, economizando tostão por tostão, passou a adquirir a sua “Monark” trazendo debaixo do braço os quadros, garfos dianteiros, guidões, suportes de direção, pedivela, movimento central, pedais, pedaleiras centrais, freios dianteiro e traseiro, selins, descarrilhadores traseiro e dianteiro, protetores de câmbio, protetores de raios, porcas das abraçadeiras do selim, alavanca de freio, canotes do selim, correntes, faróis movidos a dínamos que recarregavam baterias para iluminar a escuridão da noite, câmaras de ar, raios avulsos, bombas manuais para enchimento de pneus...

Concluídas as aquisições das peças, que incluíram também uma capa de plástico brilhoso para o Selim, ilustrada com o escudo do seu time do coração envolto em franjas nas cores preto e vermelho que descaíam rumo à bunda, um farol niquelado movido a dínamo, bem como vários decalques com os escudos das Seleções campeãs das Copas do Mundo de 62, com os respectivos placares das partidas, orgulhoso, levou dias senão meses, montando, peça por peça, a sua “magrela”.

Ocorre que a sua alegria durou pouco: Como levara meses para comprar e montá-la, o prazer de passear com a sua “joinha”, não durou mais que cinco ou seis meses, pois nos primeiros dias do mês de abril de 1964, ingressara na Corporação da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais...

Mudou-se para a capital mineira e deixou a sua Monark verde e branca, aro duplo, freio de contra-pedal, toda equipada na casa da tia Otelina, jogada num canto da despensa... Anos mais tarde, fora informado, por carta, que “a mãe tinha vendido a magrela”. Nunca mais a viu.

Que fim levou a Bicicleta do primo Mundim, que durante anos, acalentou-me o sonho de peidar no escudo do time cujo nome não se deve pronunciar, “nem que a vaca tussa”?

elramo

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Rio de Janeiro/RJ

Garrincha


Em 01/03/2021 às 11:25
 

Que maravilha de história...

Nicanor Passos

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 01/03/2021 às 12:34
 

elramo disse:
Que maravilha de história...
Obrigado, Elramo. História (e não estória), portanto, verídica. Essa e outras crônicas que estou rabiscando sobre amigos e amizades que tive na minha juventude, sempre com torcedores de clubes rivais, na minha terra natal, vou postar aqui, para quem se interessar a ler sobre amenidades futebolísticas. 


Nicanor Passos

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 01/03/2021 às 18:07
 

elramo disse:
Que maravilha de história...
Tenho outros "causos" sobre amigos vascaínos, tricolores, flamenguistas e - acredite se quiser - até de americanos, banguenses e torcedores do Olaria com quem convivi na minha mocidade, Elramo. 


 
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