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Nicanor Passos
  A INJUSTIÇADA "FAMÍLIA DOS CAPETAS" E O CRAQUE “ZÉ COBRINHA”

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 01/03/2021 às 17:54

A INJUSTIÇADA "FAMÍLIA DOS CAPETAS" E O CRAQUE “ZÉ COBRINHA”

Viviam ali, em cima de um vasto lajedo que a natureza mineira se encarregou de edificar entre a rua que margeava os fundos do Ginásio Santo Antônio (na direção da Rua Pouso Alegre, no Bairro Feirinha), e a antiga caixa d´água situada num grande morro e de pouco uso naqueles tempos em que ainda não existia a CAENA – Companhia de Águas e Esgotos de Nanuque.

Eram exímios oleiros. Tinham por ofício a coleta de barro que, depois de exposto ao Sol causticante da minha Nanuque 40 graus, estocavam os artefatos que construíam com o maior esmero para uma nova secagem sobre a grande laje de pedras que, somadas a centenas de pedaços de cacos de garrafas (decerto lançados por algum gaiato ou por filhos de almofadinhas da época somente para vê-los sofrer), lhes faziam apresentar pés eivados de cicatrizes de perebas.

Trabalhadores a mancheia, a rotina familiar resumia-se a sentir na pele negra o frio do barro molhado, o calor dos fornos aquecidos por gravetos de lenha angariada de refugos de tacos e de pequenos pedaços triangulares de madeira (que a Madeireira Montanha deixava expostos em frente à sua sede, na Rua Viçosa, quase esquina do Rio que descia sinuoso, antes da curva que rumava ao Laticínios Agostinho Bossi), para quem mais quisesse servir-se daquele restinho de Mata Atlântica em adiantado estágio de extinção, e a fumaça que lhes marejavam os olhos alaranjados.

As mesmas mãos que lidava com a argila preta para a moldagem de potes e moringas, que serviam de recipientes para armazenagem das águas do Rio Mucuri nas casas de família da minha cidade, também lhes serviam de ferramental para edificar os casebres de enchimento onde moravam.

Ao cabo de dez a quinze dias, depois de eliminado o excesso de umidade, punham-se a enfiar os objetos na boca sorridente de um grande forno, construído em adobe de terra amarela e sob forma ovalada, para o cozimento das peças que, durante a semana, vendiam na calçada da antiga Estação Ferroviária da extinta Estrada de Ferro Bahia e Minas.

Rotineiramente, aos sábados, espalhavam os artefatos sob panos de chita nas imediações da Padaria Spalla, situada em frente ao Mercado Municipal, na antiga Rua Uberlândia (atual Avenida Geraldo Romano), com ares complexados, a implorar aos olhares dos desdenhosos que por ali passavam:

- “Compre uma moringa, seu moço... Tamo precisado.”

Vez e outra, punha-me a observar do que se alimentavam: uma comida cheirosa e amarela (angu, xinxim, acarajé, abará, vatapá), que exalava um aroma malagueta daqueles de fazer o mais forte dos homens chorar, sentir coriza e ardência nos cabelos.

A quando e vez, dançavam nos quintais dos casebres cobertos de palha de coqueiro e entoavam cantos soprados pelos ventos da Mãe África. Mas a tal cantoria não durava muito tempo, pois logo adentravam um pequeno cômodo, que se situava aos fundos das três ou quatro choças, onde reverenciavam seus santos: Xangô, Iansã, Oxossi, Oxum, Nanã, Oxalá, Iemanjá, Omolu, Ogum e Oxumarê – fato que (sabe-se lá quem foi o autor da injustiça) lhes rendeu o apelido odioso.

Posto que injusta a fama, quando algum desalmado, ou alguma velha carola, adoradora de padres lhes chamavam de “macumbeiros” (com justo motivo) viravam feras; proferiam palavras impublicáveis, lançavam pragas aos seus desafetos – os mesmos que se abeberavam das águas armazenadas nos objetos que construíam com tanto amor com as mãos calejadas e com a pele carcomida pelo barro que lhes davam um único cabedal: deformidades nos dedos, varizes, problemas respiratórios, irritação nos olhos causados pela exposição direta à fumaça, lombalgias, escolioses, cifoses, perda auditiva, dermatose, problemas de pele!

Triste sina, como mentiras repetidas seguidas vezes viram “verdades”, da fama de “macumbeiros” para “Família dos Capetas”, foi um pulo e ninguém mais ousou saber quais eram os seus prenomes, tampouco sobrenomes.

De tal arte homofóbica, o patriarca do pequeno grupo deixou de possuir um nome. Passou a ser conhecido, simplesmente, pelo alcunha de “seu Zé dos Capetas”, apesar de cioso para com suas obrigações, probo, reto e trabalhador; a matriarca - apesar de senhora zelosa pela honra da prole, trabalhadeira e caprichosa - “dona Maria dos Capetas”. As três meninas de idade tenra, “as Capetinhas” e o garoto (quase mudo)“Zé Cobrinha”, simplesmente.

“Zé Cobrinha”, um menino de andar desengonçado e de pouca pronúncia, bom de bola a mais não poder e que não tirava do corpo fino uma camisa do Flamengo, era um caso à parte, na Nanuque dos anos do Século passado, especialmente, nos idos dos anos 60.

De fato, nunca entendi o porquê dos alcunhas atribuídos à família do meu amigo “Zé Cobrinha” – tanto mais porque quando aventurávamos a correr atrás de bolas no campos carecas de futebol na cidade, na hora da formação dos times, mesmo era disputado a tapas em razão do trato fino que o mesmo dedicava à pelota:

- “Par, ou ímpar”?

- “Ímpar...”

- “Par....”

- “Uma, duas, três...já!”

- “Ganhei! Zé Cobrinha é meu!”

- “Não senhor! Zé Cobrinha é do meu time. Se não, levo a bola pra casa!” – era quase sempre assim que se iniciava a seleção dos atletas, antes de as pernas escanchadas e os pés calçados com Kichute´s - os “pés de cachorros” que somente os bons de bola podiam usar na época.

Certa ocasião, viu-se amarrado a um poste, em plena avenida comercial da cidade, apanhando, levando tapas e sopapos, até a chegada de um delegado idiota, que nada fez senão jogá-lo no camburão de um automóvel marca Rural, dando-lhe voz de prisão, sob a acusação de que se tratava de “ladrão de galinhas”, fato que causaria rubor aos versos a qualquer conto alexandrino:

- "Assim é. Roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza. O roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres!"

Que fim levou a injustiçada “Família dos Capetas” que, a despeito de contribuir para a matança da sede e da abastança nas mesas de uma sociedade hipócrita com quem convivi nos meus tempos de adolescência, era composta por gente exímia na arte de fazer peças de barro, eu não sei.

Santo Deus!, somente agora, ao encontrar-me na faixa do “quase atravessando o Cabo da Boa Esperança”, também conhecido como “pior idade”, é que me atino sobre o porquê de, desde cedo, nunca fui afeito a tratar com menoscabo amigos que torcem para clubes rivais e não para o meu Botafogo.

Pelo sim, pelo não, Freud talvez explique se o meu amigo “Zé Cobrinha” tem alguma coisa a ver com a aversão que sinto às palavras homofobia, racismo e discriminação de pele.

Nicanor Passos

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 01/03/2021 às 18:08
 

Nicanor Passos disse:

A INJUSTIÇADA "FAMÍLIA DOS CAPETAS" E O CRAQUE “ZÉ COBRINHA”

Viviam ali, em cima de um vasto lajedo que a natureza mineira se encarregou de edificar entre a rua que margeava os fundos do Ginásio Santo Antônio (na direção da Rua Pouso Alegre, no Bairro Feirinha), e a antiga caixa d´água situada num grande morro e de pouco uso naqueles tempos em que ainda não existia a CAENA – Companhia de Águas e Esgotos de Nanuque.

Eram exímios oleiros. Tinham por ofício a coleta de barro que, depois de exposto ao Sol causticante da minha Nanuque 40 graus, estocavam os artefatos que construíam com o maior esmero para uma nova secagem sobre a grande laje de pedras que, somadas a centenas de pedaços de cacos de garrafas (decerto lançados por algum gaiato ou por filhos de almofadinhas da época somente para vê-los sofrer), lhes faziam apresentar pés eivados de cicatrizes de perebas.

Trabalhadores a mancheia, a rotina familiar resumia-se a sentir na pele negra o frio do barro molhado, o calor dos fornos aquecidos por gravetos de lenha angariada de refugos de tacos e de pequenos pedaços triangulares de madeira (que a Madeireira Montanha deixava expostos em frente à sua sede, na Rua Viçosa, quase esquina do Rio que descia sinuoso, antes da curva que rumava ao Laticínios Agostinho Bossi), para quem mais quisesse servir-se daquele restinho de Mata Atlântica em adiantado estágio de extinção, e a fumaça que lhes marejavam os olhos alaranjados.

As mesmas mãos que lidava com a argila preta para a moldagem de potes e moringas, que serviam de recipientes para armazenagem das águas do Rio Mucuri nas casas de família da minha cidade, também lhes serviam de ferramental para edificar os casebres de enchimento onde moravam.

Ao cabo de dez a quinze dias, depois de eliminado o excesso de umidade, punham-se a enfiar os objetos na boca sorridente de um grande forno, construído em adobe de terra amarela e sob forma ovalada, para o cozimento das peças que, durante a semana, vendiam na calçada da antiga Estação Ferroviária da extinta Estrada de Ferro Bahia e Minas.

Rotineiramente, aos sábados, espalhavam os artefatos sob panos de chita nas imediações da Padaria Spalla, situada em frente ao Mercado Municipal, na antiga Rua Uberlândia (atual Avenida Geraldo Romano), com ares complexados, a implorar aos olhares dos desdenhosos que por ali passavam:

- “Compre uma moringa, seu moço... Tamo precisado.”

Vez e outra, punha-me a observar do que se alimentavam: uma comida cheirosa e amarela (angu, xinxim, acarajé, abará, vatapá), que exalava um aroma malagueta daqueles de fazer o mais forte dos homens chorar, sentir coriza e ardência nos cabelos.

A quando e vez, dançavam nos quintais dos casebres cobertos de palha de coqueiro e entoavam cantos soprados pelos ventos da Mãe África. Mas a tal cantoria não durava muito tempo, pois logo adentravam um pequeno cômodo, que se situava aos fundos das três ou quatro choças, onde reverenciavam seus santos: Xangô, Iansã, Oxossi, Oxum, Nanã, Oxalá, Iemanjá, Omolu, Ogum e Oxumarê – fato que (sabe-se lá quem foi o autor da injustiça) lhes rendeu o apelido odioso.

Posto que injusta a fama, quando algum desalmado, ou alguma velha carola, adoradora de padres lhes chamavam de “macumbeiros” (com justo motivo) viravam feras; proferiam palavras impublicáveis, lançavam pragas aos seus desafetos – os mesmos que se abeberavam das águas armazenadas nos objetos que construíam com tanto amor com as mãos calejadas e com a pele carcomida pelo barro que lhes davam um único cabedal: deformidades nos dedos, varizes, problemas respiratórios, irritação nos olhos causados pela exposição direta à fumaça, lombalgias, escolioses, cifoses, perda auditiva, dermatose, problemas de pele!

Triste sina, como mentiras repetidas seguidas vezes viram “verdades”, da fama de “macumbeiros” para “Família dos Capetas”, foi um pulo e ninguém mais ousou saber quais eram os seus prenomes, tampouco sobrenomes.

De tal arte homofóbica, o patriarca do pequeno grupo deixou de possuir um nome. Passou a ser conhecido, simplesmente, pelo alcunha de “seu Zé dos Capetas”, apesar de cioso para com suas obrigações, probo, reto e trabalhador; a matriarca - apesar de senhora zelosa pela honra da prole, trabalhadeira e caprichosa - “dona Maria dos Capetas”. As três meninas de idade tenra, “as Capetinhas” e o garoto (quase mudo)“Zé Cobrinha”, simplesmente.

“Zé Cobrinha”, um menino de andar desengonçado e de pouca pronúncia, bom de bola a mais não poder e que não tirava do corpo fino uma camisa do Flamengo, era um caso à parte, na Nanuque dos anos do Século passado, especialmente, nos idos dos anos 60.

De fato, nunca entendi o porquê dos alcunhas atribuídos à família do meu amigo “Zé Cobrinha” – tanto mais porque quando aventurávamos a correr atrás de bolas no campos carecas de futebol na cidade, na hora da formação dos times, mesmo era disputado a tapas em razão do trato fino que o mesmo dedicava à pelota:

- “Par, ou ímpar”?

- “Ímpar...”

- “Par....”

- “Uma, duas, três...já!”

- “Ganhei! Zé Cobrinha é meu!”

- “Não senhor! Zé Cobrinha é do meu time. Se não, levo a bola pra casa!” – era quase sempre assim que se iniciava a seleção dos atletas, antes de as pernas escanchadas e os pés calçados com Kichute´s - os “pés de cachorros” que somente os bons de bola podiam usar na época.

Certa ocasião, viu-se amarrado a um poste, em plena avenida comercial da cidade, apanhando, levando tapas e sopapos, até a chegada de um delegado idiota, que nada fez senão jogá-lo no camburão de um automóvel marca Rural, dando-lhe voz de prisão, sob a acusação de que se tratava de “ladrão de galinhas”, fato que causaria rubor aos versos a qualquer conto alexandrino:

- "Assim é. Roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza. O roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres!"

Que fim levou a injustiçada “Família dos Capetas” que, a despeito de contribuir para a matança da sede e da abastança nas mesas de uma sociedade hipócrita com quem convivi nos meus tempos de adolescência, era composta por gente exímia na arte de fazer peças de barro, eu não sei.

Santo Deus!, somente agora, ao encontrar-me na faixa do “quase atravessando o Cabo da Boa Esperança”, também conhecido como “pior idade”, é que me atino sobre o porquê de, desde cedo, nunca fui afeito a tratar com menoscabo amigos que torcem para clubes rivais e não para o meu Botafogo.

Pelo sim, pelo não, Freud talvez explique se o meu amigo “Zé Cobrinha” tem alguma coisa a ver com a aversão que sinto às palavras homofobia, racismo e discriminação de pele.

CORREÇÃO: Pelo sim, pelo não, Freud talvez explique se o meu amigo “Zé Cobrinha” tem alguma coisa a ver com a aversão que sinto às palavras homofobia, racismo e discriminação de qualquer natureza.


elramo

Desde o início • 12+ anos de CANAL
Rio de Janeiro/RJ

Garrincha


Em 01/03/2021 às 20:57
 

CARALHO! Cada história melhor do que a outra...

Nicanor Passos

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 01/03/2021 às 21:43
 

elramo disse:
CARALHO! Cada história melhor do que a outra...
Confira, então, o "causo" do Treinador Vascaíno que nascera à frente do seu tempo cronológico, Elramo.


 
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