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  MINHA PRIMEIRA VEZ NUM ESTÁDIO DE FUTEBOL

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 02/03/2021 às 03:58

MINHA PRIMEIRA VEZ NUM ESTÁDIO DE FUTEBOL

A primeira vez que sentei a bunda em cimentos de arquibancadas deu-se no final dos anos 60, quando, “ao chegar do interior, inocente puro e besta”, estive em “Belzonte”, para tentar corrigir o meu olho esquerdo vesgo, em consulta previamente agendada com Dr. Roberto Abdalla Moura (aquele mesmo oftalmologista que operou o Tostão, após descolamento de retina fruto de uma bicuda que lhe desferira o Ditão, um zagueiro ruim de bola que jogava no Corinthians).

Fechado esse parêntese preambular, o fato é que, depois de ter percorrido (dentro de um velho ônibus da Viação São Geraldo) os 660 kms que separavam a minha terra natal da capital mineira, à noite, fui surpreendido pelo meu cunhado:

- “Troque roupa, pois vou te levar para conhecer o Mineirão”.

- “Quem vai jogar, Walter”? – indaguei, esperando resposta afirmativa no sentido de que o Botafogo estaria na cidade, jogando pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa – o “Robertão” – precursor do atual Campeonato Brasileiro.

Para o meu desalento, a resposta veio na ponta da língua:

- “Cruzeiro e Vila Nova na preliminar de América e Atlético”, pelo Campeonato Mineiro.

Como em minha cidade natal Campeonato Mineiro e bosta era tudo a mesma coisa (na terra onde nasci o chique era torcer para os times cariocas, com o ouvido colado ao pé do rádio), pensei com meus botões:

- “Vamos lá assistir essa merda e seja o que Deus quiser!”

Por volta da sete da noite, entrei na Veraneio do cunhado e partimos da Padre Rolim, uma rua estreita situada nas proximidades do Colégio Arnaldo, rumo ao Estádio Magalhães Pinto.

Rapaááá! Achei que o trem num ia prestá, mas foi bão dimais da conta, sô! Quando o Cruzeiro entrou em campo, tendo à sua frente o goleiro Raul Plasmann vestindo uma camisa amarela, o estádio veio abaixo! É que, já naqueles tempos, a torcida do Galo era maioria e, entoada pela “Charanga do Júlio o Mais Amigo”, ecoaram gritos que ainda martelam meus ouvidos:

- “Vanderléa... Vanderléa... Vanderléa...” – alusão à “Ternurinha”, cantora que formava o mais famoso trio musical do movimento “Jovem Guarda”.

Com o Raul pegando mais do que sinal de wi-fi, o time celeste venceu o Vila Nova (time mineiro da cidade de Nova Lima, que jogava com camisas banguenses), por 2 x 1, gols de Natal e Evaldo.

Finda a preliminar, saímos apressados para saborear um “Kaol” (comida típica do lugar, servida em marmitas, composta por tutu, arroz, torresmo, couve e ovo-mole-frito, acompanhado de Coca-Cola), uma delícia, daquelas de lamber os beiços!

Veio o jogo principal e, coitado, o meu cunhado fez de tudo para que eu passasse a torcer pelo seu Galo mineiro. Fez uso de todos os argumentos possíveis e inimagináveis – desde comparar as cores alvinegras do seu time com as do meu Botafogo, a beleza e o espetáculo que a Charanga do Galo fazia no estádio, até os arrepiantes gritos de galooooo, galoooo, galooooo, quando o Dario –o Peito de Aço – pegava na bola.

Não teve jeito! Vá entender esta minha mania de torcer para times pequenos: Meu coração magrelo cismou de gostar do América – time que entrara em campo uniformizado com meiões, calções e camisas na cor verde-periquito (“verde-cana”, como chamávamos aquela cor fluorescente na minha Nanuque querida).

Finda a rodada dupla, ao voltamos para casa, o cunhado perguntou-me se havia gostado da “Charanga do Galo” e respondi-lhe, conforme a narrativa que passo a expor.

Gostar, eu gostei. Mas não tanto quanto as cantorias do cantor cego, que animavam as partidas de futebol, nas tardes quentes da terra onde nasci.

É bem verdade que nunca vira e nem ouvira uma Charanga em estádios de futebol. Até então, onde nasci, quem animava o campo careca da Associação Atlética Bueno não eram bandas musicais, com instrumentos de percussão e sopro, mas sim um sujeito cujo caminhar dava-se a passos apressados, com a cabeça empinada rumo ao Sol. Mão direita sempre posta sobre o ombro também destro de um garoto de pele marrom que lhe fazia as vezes de cão-guia e lhe prestava assistência nos apetrechos que trazia dentro de um saco alvo de açúcar cristal. Descia sempre rápido a ladeira empoeirada do Alto Bonito rumo à Rua Uberlândia, onde, aos domingos, marcava ponto com as suas apresentações.

Portador de deficiência visual grave, nada enxergava, mas a tudo sentia, de tudo entendia, especialmente letras de cantorias que bem entoava ao dedilhar um violão que trazia às costas, em sentido transversal, da direta para a esquerda.

Tal era a sua capacidade: discernia eventuais perigos quando caminhava; sentia o perfume que exalava dos corpos das moças que ali assistiam os jogos de futebol – motivo o bastante para mudar o tom de voz, de alto a respeitoso, cumprimentando-as com um leve aceno de cabeça. Se masculinas as passadas que ouvia, mudava o tom: alterava a voz, mudava a canção e os dedos percorriam as cordas do instrumento musical de forma mais acelerada.

Cego por genética constituição, aparentava ser pessoa dotada de inteligência bastante elevada e treinamento avançado nos quesitos cantar e tocar. E como era gostoso vê-lo tocar com aquele violão enfeitado de seis ou sete fitas de sedas dependuradas no braço do instrumento gasto a balançar com a pouca brisa das manhãs dominicais da minha Nanuque esturricante!

Trazia amarrados aos dedos que marcavam o compasso musical, com base em pulsos e repousos, um casal de mamulengos (fantoches feitos a retalhos velhos) que a garotada nominava de Lampião e Maria Bonita, em razão da semelhança dos marionetes com os cangaceiros nordestinos.

E tocava... e os bonecos dançavam até amolecerem os pés e levantar a poeira que se escondia na mão direita do manipulador para lhes dar movimentos vivos!

Ao pescoço (bem ao estilo do suporte que o apresentador Sílvio Santos carregava para segurar-lhe o microfone), trazia um realejo para, a um só tempo, fazer fundo musical às canções que entoava.

Bonito de se ver!

Melhor ainda eram os sons do pandeiro, inventados pelo seu fiel assistente - um moleque que criou uma batida própria, invertendo, por completo, a maneira tradicional de tocar: Enquanto o cego fazia calos nas cordas do violão, o guri invertia a lógica musical – na batida clássica o dedo responsável pelo tempo forte é o polegar (o "dedão") e os tempos fracos batem-se com a ponta dos dedos –, ele fazia o contrário, o tempo forte era feito com a ponta dos dedos e o "dedão" fazia os tempos fracos:

- Tundum... ticumbum...

- Tundum... ticumbum...

- Ticumbum... tundum...

- Ticumbum... tundum...

Apesar das aparências, não eram repentistas (duplas que improvisam o "repente", sobre os mais variados temas, ao som de músicas extremamente simples, quase monótonas, tocada em violões ou violas, que, invariavelmente, denotam um uso excessivo de rimas pobres). Ao contrário, suas apresentações eram em praça pública, em geral nos arrabaldes da praça da feira, ou durante os festejos religiosos, apresentando temáticas ao gosto dos fregueses, e também sobre atualidades.

Pelos espetáculos que produzia a céu aberto, nada cobrava. Naqueles eventos esportivos do interior, a quando e quando quebrava o paradigma da sua faina rotineira: tocava sanfona, ao invés de violão. Tinha uma mania: Recusava-se a botar preço nos espetáculos - o quanto arremessavam dentro de um vasilhame de queijo bola cortado ao meio, cor vermelho desbotado, para servir de caixinha ou gorjetas lhe era suficiente...

E por mais que algum gaiato lhe pedisse para tocar os hinos de Flamengo, Vasco ou Botafogo, a resposta era sempre a mesma:

- “Só toco e canto música das boa. Hino de futebol num é minha praia!”

Dito e feito:

- “Pare de tomá a pírula... Pare de tomar a pírula... Pare de tomar a pírula... Pruquê ela num deixa nosso fio nascer...”

- Tundum... ticumbum...

- Tundum... ticumbum...

- Ticumbum... tundum...

- Ticumbum... tundum...

 

lscunha

Desde 12/2007 • 13 anos de CANAL
Blumenau/SC

Garrincha


Em 02/03/2021 às 09:13
 

icanor,

acho sensacional essas narrativas e sugiro que faça uma coletânea sobre "seus causos"

sugiro também que estimule os amigos aqui do canal, para escreverem suas histórias sobre o Botafogo e depois de você selecionar, revisar e ilustrar as mesmas, publicar com autorizações de abertura de direitos, o que lhe permitirá vender as publicações e reverter o valor de venda para uma instituição que todos escolheremos entre as elencadas.

escolheremos também um nome para a publicação e indicaria o título como "botafoguenses são diferentes"

 

lscunha 





LUIZ SERGIO CUNHA

Nicanor Passos

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 02/03/2021 às 10:47
 

lscunha disse:

icanor,

acho sensacional essas narrativas e sugiro que faça uma coletânea sobre "seus causos"

sugiro também que estimule os amigos aqui do canal, para escreverem suas histórias sobre o Botafogo e depois de você selecionar, revisar e ilustrar as mesmas, publicar com autorizações de abertura de direitos, o que lhe permitirá vender as publicações e reverter o valor de venda para uma instituição que todos escolheremos entre as elencadas.

escolheremos também um nome para a publicação e indicaria o título como "botafoguenses são diferentes"

 

lscunha 

Mestre, LS Cunha

Obrigado pelas palavras gentis. Mas, nesses tempos de comunicação via redes sociais, esse tipo de comunicação não dá ibope perante a geração smarphones. Foi-se o tempo em que livros impressos vendiam. A intenção pode até ser boa, mas o fiasco de lançar um coletânea sobre os causos em questão, com certeza, ocorreria. rsrsrsrs 



lscunha

Desde 12/2007 • 13 anos de CANAL
Blumenau/SC

Garrincha


Em 02/03/2021 às 11:57
 

pode ser, mas quem lê por paixão, gosta de sentir o livro nas mãos e não os olhos numa tela.

mal compaando, uma coisa é fazer sexo e outra é assistir filme pornô.

 

lscunha 





LUIZ SERGIO CUNHA

elramo

Desde o início • 12+ anos de CANAL
Rio de Janeiro/RJ

Garrincha


Em 02/03/2021 às 12:11
 

Outra pérola....

cadu

Desde o início • 12+ anos de CANAL
Rio de Janeiro/RJ

Garrincha


Em 02/03/2021 às 21:32
 

Muito boas as crônicas! Temos aqui no Canal Botafogo um talentoso escritor, cheio de estilo. Parabéns, Nicanor!

lscunha

Desde 12/2007 • 13 anos de CANAL
Blumenau/SC

Garrincha


Em 03/03/2021 às 08:34
 

Cadu,

também gostei da história que postou.

 

lscunha 





LUIZ SERGIO CUNHA

cadu

Desde o início • 12+ anos de CANAL
Rio de Janeiro/RJ

Garrincha


Em 03/03/2021 às 12:47
 

lscunha disse:

Cadu,

também gostei da história que postou.

 

lscunha 


Cunha

Obrigado, eu gosto de escrever, mas não tenho o talento do Nicanor. Ele é como um Didi ou um Gérson, eu estou mais para um Bruno Nazário... 

O melhor das deliciosas crônicas do Nicanor é que trazem de novo ao foco do Canal Botafogo o botafoguismo e uma visão positiva do nosso clube querido. 

Abraço. 



Nicanor Passos

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 03/03/2021 às 22:20
 

cadu disse:
lscunha disse:

Cadu,

também gostei da história que postou.

 

lscunha 


Cunha

Obrigado, eu gosto de escrever, mas não tenho o talento do Nicanor. Ele é como um Didi ou um Gérson, eu estou mais para um Bruno Nazário... 

O melhor das deliciosas crônicas do Nicanor é que trazem de novo ao foco do Canal Botafogo o botafoguismo e uma visão positiva do nosso clube querido. 

Abraço. 

Cadu,

Deixe de modéstia, pois a narrativa do seu encontro com o Tarzan e os detalhes do ônibus da Viação Cometa são impressionantes! 



Nicanor Passos

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 03/03/2021 às 22:21
 

cadu disse:
Muito boas as crônicas! Temos aqui no Canal Botafogo um talentoso escritor, cheio de estilo. Parabéns, Nicanor!

Obrigado, Cadu.


fidel_garrincha

Desde 08/2012 • 8 anos de CANAL
Rio de Janeiro/RJ

Garrincha


Em 03/03/2021 às 22:42
 

Nicanor, seus textos são espetaculares ! Fazem com que eu sinta saudade de um tempo que nem vivi (mas gostaria de ter vivido)....

Nicanor Passos

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 03/03/2021 às 22:55
 

fidel_garrincha disse:
Nicanor, seus textos são espetaculares ! Fazem com que eu sinta saudade de um tempo que nem vivi (mas gostaria de ter vivido)....


"saudade de um tempo que nem vivi "

Isso é poesia pura, meu caro Fidel. Ainda vou plagiar esta frase... rsrsr 



fidel_garrincha

Desde 08/2012 • 8 anos de CANAL
Rio de Janeiro/RJ

Garrincha


Em 03/03/2021 às 23:22
 

Nicanor Passos disse:
fidel_garrincha disse:
Nicanor, seus textos são espetaculares ! Fazem com que eu sinta saudade de um tempo que nem vivi (mas gostaria de ter vivido)....


"saudade de um tempo que nem vivi "

Isso é poesia pura, meu caro Fidel. Ainda vou plagiar esta frase... rsrsr 


Fique a vontade, meu amigo. Com certeza, fará melhor uso dela do que eu ! Abs


 
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