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  O TRICOLOR QUE ENSINOU-ME A SOLTAR FOGUETES QUANDO O BOTAFOGO VENCIA

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 01/03/2021 às 12:23

O TRICOLOR QUE ENSINOU-ME A SOLTAR FOGUETES QUANDO O BOTAFOGO VENCIA

Como não tenciono contar dia por dia a vida do personagem, tentarei correr um pequeno véu sobre alguns acontecimentos da minha mocidade até encontrar-me com um amigo, com quem tive o prazer de conviver, entre os anos de 1969 a 1971, em Nanuque/MG.

Acabara de mudar-me “do lado de lá” para o “lado de cá” do Rio Mucuri, vale dizer, da Rua Novo Cruzeiro, no Bairro Feirinha, para o antigo “Vira Mundos”, quando conheci aquele que foi, sem dúvida alguma, a pessoa mais marcante em minha fase juvenil: Um homem pacato (mas de fala rápida e entonação sempre exclamativa), dado a ensinar aos mais jovens sobre as dificuldade que o País atravessava naqueles tempos em que a dita dura era muito dura, militarmente falando.

Ainda me lembro, com o seu radinho vermelho de pilha, marca Evadin, ao colo (sempre dando uns tapas no aparelho para captar as ondas sonoras que vez em quando falhava), o que ele tinha a dizer sobre esse ou aquele assunto era sempre prazeroso, uma verdadeira viagem cultural...

Não sei se apenas “por ouvir dizer”, mas o fato é que o meu amigo conhecia, a fundo, todas as ruas, praças, avenidas e becos da antiga capital do antigo Estado da Guanabara, o Rio de Janeiro – embora mineiro de Carlos Chagas.

Tal era o meu amigo da Rua Circular: andar esguio, elegante, olhos amendoados-vivos, cabelos negros, “mais negros que as asas da graúna”, bem aparados e cheirosos a “Brilhantina Glostora”, sempre penteados “de banda”, da esquerda para a direita, somente se despenteavam quando alguém o tirava do sério (hipótese em que pigarreava, sem parar, coçando a garganta), como era o caso de um seu irmão  univitelino, nascido da mesma gestação - um cruzeirense chato, que morava na capital mineira e vivia encher-lhe o saco, a falar mal do seu time do coração, nas poucas vezes em que se encontravam.  

Só por isso, nunca fui com a cara daquele sem vergonha “nabaço” do meu amigo! É que sou (e continuarei a sê-lo, até o dia em que “bater com a cara na cataquara”, quando “partir-me desta para uma melhor” – ou pior) fiel a quem quero bem: meus amigos não têm defeito – são bonitos, cheirosos, probos, retos e se defeitos tiver, dou sempre um “jeitinho” de amenizar suas poucas valias e de colocá-los nos inimigos de quem estimo.

Que culpa tenho se, nos meus tempos de mocidade nanuquense, tive por boa companhia um sujeito bem apessoado, ajeitado, alinhado, sempre vestido com impecáveis calças cor azul marinho e camisas brancas de doer as vistas, a circular pela Circular, nº 105?

Era assim o meu amigo: funcionário público, Contínuo exemplar do Banco do Brasil, mas um cara paradoxal, cheio de contradições. Afinal, como explicar um homem tão culto, que sabia tudo sobre política (narrava todos os fatos históricos, que variavam desde a 2º Grande Guerra, em seus mínimos detalhes); que conhecia todas as crônicas do Nelson Rodrigues; sabia, “de có e salteado” todas as ladainhas e rezas das contas do rosário; que filosofava a encher-me os olhos, não tivesse galgado posto na escala social bancária?

Vá entender... Coisas de sábios. Homens inteligentes são assim mesmo - acima de tudo, humildes.

Como naquele tempo ainda não tínhamos televisão, foi na casa dele que assisti a todos os capítulos da telenovela “Antonio Maria”, exibida pela extinta TV Tupi, estrelada pela novata Araci Balabanian e pelo saudoso Sérgio Cardoso...

Como naquele tempo ainda não possuíamos televisão, foi com ele que aprendi a gostar de “vídeo teipes” futebolísticos – um costume da época: ouvíamos as partidas disputadas pelos times cariocas, pelas ondas do rádio, e, aos domingos, antes do “Programa Flávio Cavalcante”, na TV em P&B, sentávamos todos em sua sala de tacos amarelos, encerados a “Parquetina”, para assistir as reprises e, após, as análises exibidas pelo Rui Porto num quadro-negro. Como desdeaquela época não era dado a frequentar missas, foi com ele que aprendi a rezar:

"A treze de maio na cova da iria...

- No céu aparece a Virgem Maria...

- Ave, ave, ave Maria... Ave, ave, ave Maria! 

- Há três pastorinhos cercada de luz...

- Visita a Maria, mãe de Jesus!

- Ave, ave, ave Maria... Ave, ave, ave Maria" - entoava, contando-me o "Milagre da Virgem de Fátima" que o atormentara na infância carlochaguense...

E porque, naquele tempo, também não tinha um vintém para comprar revistas e jornais, foi com a sua generosidade que adquiri o hábito de ler os periódicos “O Globo”, “Jornal dos Sports” (esportivo carioca impresso em páginas cor de rosa), “O Estado de Minas” e a viajar nas páginas da “Seleções Readers Digest”, revista publicada em 35 línguas e distribuída em 120 países, vendida predominantemente por assinatura:

- “Cleusa, leve a Seleções para o Nicanor ler” – dizia à esposa, com aquele seu jeito simples de expressar intenção de educar e estimular a leitura a quem se interessava por matérias leves e informativas.

Jamais o vi nervoso. Tinha um olhar tênue, mesmo ante eventual derrota do seu Fluminense – clube para o qual torcia, fervorosamente, e a quem não se cansava de gritar “neeeeennnse! a cada gol que fazia contra o meu Botafogo, aos domingos, só para irritar-me!

Foi com ele que aprendi a velha mania de estourar foguetes em minha janela, quando meu Botafogo vence o seu Fluminense; é dele a herança que ainda me consome: estender bandeiras do Glorioso aos domingos, como quem estivesse a adverti-lo: “Eu estou aqui, Hamilton!”.

Não me consta em memória de homem sessenta e seis qualquer sinal de medo daquele amigo corajoso e destemido, apesar de aparência calma – salvo quando, ora e outra, apanhava-o aos berros, tremendo, suando frio, enrolado num cobertor de lã, ou, aos prantos, suando frio, subindo sobre a mesa:

“Uma barata!... Uma barata!... Uma barata!... Cleusa, Bida, Záu... Alguém acuda-me! Mate esse bicho nojento! Mata, mata, mata!” - clamava, respectivamente, à esposa e filhas.

Que fim levou Hamilton Pinheiro – meu ídolo e amigo corajoso, que tinha medo de baratas?

Será que ainda picota fumo de rolo com as unhas e enrola o cigarro em papel de pão aos finais de tarde, como fazia sempre, ao cair da noite, na minha Nanuque quente?

Decerto que não, pois nestes tempos de pós modernidade, sou o único fora de contexto a assoprar charutos!

elramo

Desde o início • 12+ anos de CANAL
Rio de Janeiro/RJ

Garrincha


Em 01/03/2021 às 12:38
 

Cara, não acredito no que estou lendo. São pequenos contos maravilhosos. Você realmente tem um talento inato para contar casos de um mundo e um país que às vezes parece que se perderam no tempo...

fidel_garrincha

Desde 08/2012 • 8 anos de CANAL
Rio de Janeiro/RJ

Garrincha


Em 01/03/2021 às 12:43
 

"Vá entender... Coisas de sábios. Homens inteligentes são assim mesmo - acima de tudo, humildes."

 

 

Sensacional 



emilio

Desde 11/2009 • 11 anos de CANAL
Belo Horizonte/MG

Garrincha


Em 01/03/2021 às 13:33
 

Já está eleito o melhor escritor do canal... sem concorrente.. hours concurs.

alvinegro21

Desde 07/2019 • 1 ano de CANAL
Rio de janeir/RJ

Garrincha


Em 01/03/2021 às 14:09
 

cade as tirinhas? estão proibidas?



“...Você tem direito a sua própria opinião, mas não a seus próprios fatos...” (Daniel Moynihan)

Botafogo vai virar S.A. no Ano A, Dia D e Hora H!

... Se você é imortal o restante dos Brasileiros não é. Faça como o presidente USE A PORRA DA MÁSCARA. Tem umas bem bonitas com o escudo do Glorioso.

arbusto

Desde 01/2014 • 7 anos de CANAL
Brasília/DF

Nilton Santos


Em 01/03/2021 às 14:58
 

Muito bom! 

Nicanor Passos

Desde 09/2020
Goiânia/GO

Garrincha


Em 01/03/2021 às 18:04
 

emilio disse:
Já está eleito o melhor escritor do canal... sem concorrente.. hours concurs.

Bondade sua, Emílio. Mas se os "causos" servirem para amenizar o nosso ambiente, dar-me-ei por satisfeito.


 
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